* Artigo publicado originalmente na minha coluna do Valor Investe em 20 de agosto de 2026
No meu artigo de março de 2025, escrevi que tinha largado mão da Ethereum não porque a tecnologia fosse ruim, mas porque comecei a me questionar se o crescimento da rede necessariamente se transformaria em valorização do ativo que eu tinha na carteira (artigo: “Por que o Ethereum não sobe — e pode nunca mais subir?”). o Sucesso da Ethereum poderia não trazer aumento de preços para o Ether (seu token).
--- Side note aqui… eu escrevendo esse texto e vejo o eth subindo quase 9% hoje (19-ago-2026) e retomando os usd 2.000 depois de meses abaixo disso. Subiu, verdade, e voltou para o mesmo nível que estava em mar-2025 🤷♂️ ---
Bem, desde então, seguindo esse caminho confesso que a minha forma de olhar para cripto ficou ainda mais simples. Eu parei de olhar para tokens como uma classe de ativos e passei a olhar para eles como direitos econômicos diferentes. (esse artigo é um bom inicio para essa discussão: ”Btcoin, Ethereum e ações: a comparação que custa caro ao investidor”).
O melhor exemplo de como isso muda com o tempo eh o caso da uniswap. Nos últimos anos ela processou trilhões de dólares em volume e gerou centenas de milhões de dólares em taxas, mas o token UNI não tinha uma conexão econômica direta com essa geração de valor. O protocolo estava vencendo, mas o que era transmitido para o seu token (UNI) era quase nada. Isso mudou em final de 2025, quando um pedaço do resultado gerado por eles comecou a ser direcionado para recompra e queima (eliminação definitiva) de tokens UNI, gerando, dessa forma, um link direto, Onchain, verificável, entre o sucesso da uniswap e do seu token UNI.
Esse link financeiro mais direto entre tokens e iniciativas não é novidade no ecossistema cripto. GMX foi um dos primeiro a implementar isso de maneira direta no que ficou conhecido como a narrativa de real yields lá nos idos de 2021. 5 anos atrás. Perto para qualquer mercado, uma eternidade para cripto!
Essa dinâmica ficou esquecida por um tempo até o surgimento (e enorme sucesso) da Hyperliquid, que direciona perto de 96% das suas receitas para recompra e queima de seus tokens. Isso mesmo ~96%!
Hoje, HYPE, UNI, LINK, AAVE, PUMP e muito outros já estão com esses links implementados. E muitos outros estao em discussoes avançadas. Essa conexão financeira de receitas da iniciativa serem direcionadas para os detentores dos seus tokens deve ser o tema cripto dos próximos trimestres.
Essa conexão financeira de receitas da iniciativa serem direcionadas para os detentores dos seus tokens deve ser o tema cripto dos próximos trimestres.
Bem, voltando ao meu ponto sobre seleção de onde investir em cripto, hoje para eu me interessar por um token, quero conseguir responder uma pergunta básica: Se a iniciativa crescer (i.e. tiver sucesso) o token se beneficia diretametne disso? Como exatamente esse crescimento chega ao ativo que eu estou comprando?
Não quero uma resposta baseada apenas em governança. Governança pode ter valor, mas é extremamente difícil colocar preço nela. Você não consegue simplesmente capitalizar “influência” em um fluxo de caixa. E DAO então? Continuam sendo experiências e testes interessantíssimos, mas ainda em estados muito iniciais.
Quero encontrar uma engrenagem econômica que seja possível observar: recompra, queima, distribuição de receitas ou algum outro mecanismo que conecte o sucesso do protocolo ao token e que seja preferencialmente onchain e realizado automaticamente por código.
Minha tese de 2025 era que a captura de valor migraria das blockchains para as aplicações. Continuo acreditando nisso. Com interoperabilidade melhorando e ficando cada vez mais segura, blockspace está se tornando uma commodity. O usuário final não está nem aí em que rede sua aplicação está. O que importa eh que funcione.
Isso não significa que todas as aplicações vão ganhar, muito menos que todos os seus tokens vão valorizar. São investimentos em startups. Algumas em estado mais avançados (e são essas que gosto mais), outras em estados ainda bem iniciais.
Por fim, eu acho importante deixar claro que tratei de duas partes bem distintas aqui, mas que se entrelaçam continuamente: a discussão entre se o que vai capturar valor no futuro serão os protocolos de rede ou aplicações e a discussão sobre o link entre o sucesso da iniciativa e o quanto isso reflete no sucesso do token.
Minha aposta é que o que vai mais ter sucesso nessa nova fase, onde cripto e tradfi se tornarão um só conjunto, são as aplicações e, dentre essas, hoje já existem tokens através dos quais conseguimos capturar diretamente o resultado desse sucesso.
E voce, como vê isso? Já consegue identificar essas diferenças nos seus investimentos?
Abraços,
Gustavo Cunha
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