* Artigo publicado originalmente na minha coluna do Valor Investe em 09 de julho de 2026
Há pouco mais de 5 anos escrevi um artigo sobre os contratos futuros de cripto serem perpétuos. Na época, era o começo da popularização desses contratos e uma tese de que ela se expandiria. Hoje, olhando os números que estou fechando em um novo report da Fintrender, virou constatação. E não só em cripto e ativos desse setor. Tambem em ativos ligados a mercado financeiro tradicional em infraestrutura de cripto. E, o próximo passo, que já está bem avançado, é de termos esse tipo de contrato derivativo em infraestruturas de mercado financeiro tradicional.
Bem, para quem chegou agora no tema, deixa eu dar uns passos para trás. Um futuro perpétuo eh um contrato de derivativo sem data de vencimento. Nada de rolar posição a cada três meses, nada de expiração. O que mantém o preço colado no ativo à vista eh uma taxa de funding paga periodicamente entre comprados e vendidos. Simples assim. Uma ideia que ganhou uma formulação acadêmica no trabalho de Robert Shiller em 1993 e encontrou sua implementação prática em escala com a BitMEX em 2016 atraves de um mercado super ápto para isso, que negocia 24/7 e sem fechamento natural.
E desde então seu crescimento impressiona. Só as exchanges centralizadas liquidaram cerca de US$ 62 trilhões em perpétuos em 2025, contra algo perto de US$ 19 trilhões do mercado à vista. Somando tudo, os derivativos cripto passaram de US$ 86 trilhões no ano. Lembra quando escrevi sobre o mercado de quatrilhões dos derivativos? Pois é, cripto ainda é um peixe pequeno diante do oceano da CME e do mercado OTC, mas cresce a taxa incríveis. O volume mensal das DEX de perpétuos saltou de US$ 82 bilhões para US$ 739 bilhões em dois anos. Quase nove vezes. E segue aumentando.
Que esses contratos se tornaram o principal instrumento de negociação em cripto, isso já é inegável. O próximo capítulo que é o que vai dar o salto. Esse tipo de contrato virou um envelope de tudo que se negocia. Em um fim de semana em que a CME estava fechada, a Hyperliquid negociou US$ 3,7 bilhões em futuros perpétuos de petróleo. Já tem perpétuo de prata, de S&P 500, das maiores empresas da NASDAQ, e até de SpaceX antes do IPO. O mercado endereçável deixou de ser só os ativos cripto para ser qualquer coisa que tenha preço. Algo gigantesco: apenas os mercados tradicionais de commodities, ações e câmbio movimentam perto de dezena de trilhões de dólares em notional todo dia.
Um fator importante nessa vinda de perpétuos para infraestruturas de tradfi (ou rail de tradfi se preferir) está em como os reguladores estão vendo isso. E aqui as indicações são boas. Esse ano, a CFTC aprovou o primeiro perpétuo de cripto regulado nos Estados Unidos, que passou de US$ 1 bilhão em volume na primeira semana. Kraken e Coinbase já estão nesse caminho. Ondo tambem. De ameaça existencial, a regulação virou vento a favor. Só que ainda há indefinições sobre perpetuo ser enquadrado como futuro ou swap. Detalhe jurídico, mas define quem controla o acesso a esse mercado, e portanto, importante para clareza regulatória.
Agora a discussão mais profunda, e que acho mais interessante, não é apenas sobre o contrato perpétuo, mas sobre onde o preço dos ativos é formado. Para pegar o exemplo do cambio no Brasil. O que chamamos de descoberta de preco vem dos mercados futuros da B3 e depois é transmitido para o spot via operações de arbitragem. No caso dos juros no Brasil isso tb segue o mesmo rito. Juros para 2 anos é dado por contrato futuros da B3 e não títulos do Tesouro. Não é assim no mundo todo, e nem em todos os ativos, mas tem vários ativos no mundo hoje onde a formação de preços é feita primeiro nos derivativos (que são mais líquidos) do que nos ativos à vista.
Com a entrada de futuros perpétuos de tudo nos rails de cripto, onde vocês acham que serão definidos os preços de tudo em breve? infraestruturas baseadas em blockchain permitem ciclos de inovação, acesso global e operação contínua que são difíceis de replicar nos modelos de tradfi atuais. A negociação de perpétuos de petróleo no fim de semana já dá indicações. E aqui a questão não é só o futuro perpetuo em si, mas onde ele está sendo negociado. Até por isso Tradfi está correndo para ter esse instrumento funcionando. Antes tarde do que nunca!
Por fim, ficam as minhas perguntas: se o instrumento que nunca fecha já é maior que o mercado à vista e começa a engolir petróleo, ações e câmbio, quanto tempo até você negociar o seu Tesouro Direto em um contrato que nunca vence? Será a regulação capaz de retardar esse processo em cripto e dar tempo para Tradfi se ajustar? Eu tenho meus palpites. E você, o que acha?
Abraços,
Gustavo Cunha
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