* Artigo publicado originalmente na minha coluna do Valor Investe em 14 de outubro de 2026
Estamos em 2035 e tudo já foi tokenizado. Assim como a palavra digitalização, que era muito usada no início dos anos 2000, a palavra tokenização caiu em desuso. Tudo já está representado em redes de blockchain. Tudo já está tokenizado.
Alguém ainda se lembra dos bancos anunciando, com toda pompa, seus “planos de transformação digital”? Hoje ninguém diria que fez uma transferência “digital”. Seria redundante, constrangedor, coisa de tiozinho! Com a tokenização aconteceu exatamente a mesma coisa. O imóvel comprado no mês passado, a cota do fundo que paga rendimentos por hora, o recebível do agronegócio, o título público que virou presente de aniversário: tudo circula como token, e ninguém acha isso mais motivo para capa de jornal, estudos, reports, etc... Alias, muitos nem perceberam essa mudança. Só veem a praticidade e disponibilidade de tudo aumentando.
Mas se a palavra sumiu, o que de fato ficou?
Ficou a infraestrutura. Essa parte mais técnica e que poucos entenderam lá atrás, quando a tokenização era tema de painel em evento, slide de consultoria, inúmeros reports, dashboards e discussões (e eu mesmo estive em muitos desses palcos). A tokenização nunca foi o produto. Ela era o encanamento, ou o trilho se preferir. Assim como o TCP/IP, que quase ninguém sabe explicar, mas que sustenta cada mensagem que trocamos, as redes que carregam esses ativos se tornaram uma camada sem dono, invisível e onipresente. Quem apostou que a tokenização seria um negócio em si, perdeu. Quem entendeu que ela seria o chão sobre o qual outros negócios seriam construídos, ganhou.
E o dinheiro? As stablecoins deixaram de ser assunto de nicho e se tornaram o trilho padrão de liquidação. Em alguns países, o próprio Estado decidiu emitir sua moeda diretamente em blockchain, e ali a CBDC simplesmente virou o dinheiro. Dólar tokenizado, real tokenizado e depósitos bancários programáveis convivem nas mesmas redes, conversando entre si sem que o usuário saiba, ou precise saber, qual deles está usando. A pergunta que dominava 2024, “stablecoin ou CBDC?”, hoje soa tão datada quanto discutir se a internet seria discada ou banda larga. No fim, a resposta foi as duas coisas.
Isso não significa que todos os problemas foram resolvidos. Muito pelo contrário. Quando tudo vira token, a pergunta deixa de ser “como tokenizar?” e passa a ser “quem governa os padrões?”, “quem enxerga meus dados?” e “quem captura o valor dessa eficiência?”. Os intermediários que viviam da fricção, do prazo de liquidação de dois dias, da reconciliação manual, desapareceram ou se reinventaram. E os tokens de protocolo que prometiam capturar todo esse valor? Muitos ficaram pelo caminho, porque o sucesso da iniciativa nem sempre se traduziu em sucesso do token. Essa lição, aliás, custou caro a muita gente.
Há uma outra questão: a regulação acompanhou? Bem, em parte. Os reguladores aprenderam a supervisionar código, mas ainda tropeçam quando um ativo nasce em uma jurisdição, é negociado em outra e liquidado em uma terceira, tudo em poucos segundos. Inovacao sempre corre à frente dos reguladores. Privacidade continua sendo um tema persistente e que assombra os reguladores.
Ah, e quem mais usa esses trilhos hoje não somos nós. São os agentes de AI. Eles organizam nossas compras no supermercado e nossas viagens, negociam fretes para empreas, renovam seguros e rebalanceiam carteiras de investimento em nosso nome, a qualquer hora, sem pedir licença ao horário bancário (outra coisa que, aliás ficou no passado). Para uma máquina, abrir conta em banco nunca fez sentido, mas uma carteira com stablecoins e regras programadas faz todo o sentido. A tokenização criou a linguagem que as máquinas precisavam para transacionar entre si, e foi justamente aí que ela deixou de ser percebida. Nossa interação pessoal com esse mundo ficou em segundo plano, acessamos tudo via nossos agentes e eles se viram dentro desse ambiente.
No fim, o sinal mais claro de que uma tecnologia deu certo eh justamente esse: ela desaparece para nós. Paramos de falar dela porque ela simplesmente funciona. A eletricidade não é mais “inovação”, a internet não é mais “novidade” e a tokenização não é mais “tendência”.
A tokenização acabou. Viva a tokenização.
Resta saber: qual será a próxima palavra que, daqui a dez anos, também teremos esquecido de dizer?
Abcs,
Gustavo Cunha
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